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O limite dos pais PDF Imprimir E-mail

 

Para alcançar os objetivos deve-se avaliar os progressos dos alunos e, ao mesmo tempo, a eficácia de seus procedimentos, o que permite sempre que necessário uma correção de rumos ou atitudes

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Nós psicólogos, geralmente, somos convocados para falar com os pais sobre os limites; a escola, os orientadores, os pediatras etc.; deparamo-nos com a questão de como colocar limites para crianças. Em que momento é aceitável determinado comportamento? De que maneira falar que essa conduta é inapropriada? Questões que surgem em qualquer encontro com grupos de pais que buscam uma resposta esclarecedora sobre como lidar com os limites e como educar os filhos.
Por outro lado, na clínica, assistimos a uma demanda cheia de crianças e adolescentes encaminhados para consulta por sofrerem de falta de atenção, concentração, hiper-atividade. Profissionais, pedagogos, médicos centrados na problemática de como colocar limites às crianças. Como torná-las sujeitos adequados à vida social e comunitária, saber o momento pertinente, a hora de falar ou agir de um jeito ou de outro. Aprendizado fundamental, por quanto prepara o sujeito a corresponder às situações que a vida lhe apresenta: responder no momento certo, com as palavras apropriadas para atingir aquilo que se deseja. Na base da nossa vida social, parece certamente ocupar um lugar de destaque, a adequação e o reconhecimento dos limites. O que me pertence e o que pertence ao outro. Ética é fundamental na vida social e comunitária.

O que marca é como se frisa a questão de colocar os limites aos filhos. Pouco nos questionamos sobre os limites dos pais. O livro Onde Termina Você começo Eu, de Anne Katherine, aborda especificamente tal questão, e me estimula a repassar algumas idéias para este artigo. Parece que o fato de ser pai ou mãe dá uma aura de “maturidade” ou “inquestionabilidade”. A tradição judaica cristão colocou o lugar do pai, da mãe, como um lugar de respeito, e, por tanto, aquilo que vem dos pais não pode ser questionado. Como se de alguma maneira houvesse sido investido esse lugar de sabedoria “quase” divina. Um dos mandamentos diz respeitar os pais. Tem uma outra versão “temer os pais”, semelhante, ao “temor a Deus”. A divindade não tem como ser questionada desde a Antigüidade, o mundo dos deuses não compartia das mesmas leis dos humanos. O questionamento da autoridade dos pais vem timidamente aparecendo há algumas décadas, em algumas manifestações sociais, como na mídia. Longe de pensar que o fenômeno retira o lugar de respeito dos pais, penso que é saudável poder aceitar que os pais também erram e se enganam, e que na base de qualquer relação o questionamento é fundamental. Alias, há três ou quatro décadas isso era impensável.

Lembro-me de uma paciente de onze anos, que estava em processo de desligamento, fim de analise, após quatro anos... ela chegou em uma sessão comentando a respeito de uma novela, na qual a filha pedia para mãe uma tesoura para “cortar o cordão umbilical”. Metáfora pertinente para falar de limite, de corte, de separação de dois seres que em algum momento tinham sido uma unidade, ligados pelo cordão, mais que no momento do nascimento surgem dois. Nascimento biológico que remete ao nascimento psíquico e, que como corte ou separação, muitas vezes não acontece, prolongando uma união entre mãe/filho ou pai/filho, às vezes sob a forma de uma união simbiótica, não diferenciado (não podendo ser discriminando, quem fala ou quem pensa). Observamos diversas patologias produzidas por esse tipo de relação. A absoluta dependência e do lado oposto a absoluta carência ou falta de presença afetiva provocam transtornos psíquicos posteriores. Muitos são os casos de filhos que não conseguem se diferenciarem dos pais, temerosos de sair ao mundo porque os pais mostraram que o perigo reside fora do conforto e segurança do lar. Alguns adultos que hoje sofrem as chamadas “síndromes do pânico” têm histórias de uma excessiva dependência e uma falta de contorno próprio, ou, limite pessoal. A presença ou ausência dos pais é tão grande que não conseguem se desenvolver. Ter desejos próprios parece inatingível, porque estão abocados a corresponder ao desejo dos pais, que mal podem pensar neles mesmos.

Pais que, muitas vezes, frisam que apenas eles são capazes de pensar no bem- estar do filho, que “amigos verdadeiros” são os pais. Precisávamos dizer o que muitas vezes já dissemos: pai mãe não é amigo do filho, ele precisa ser pai ou mãe. Amizade é reciprocidade, um amor diferente da relação parental.
A modernidade trouxe alguns comportamento e frases que assim retratam um novo tipo de vinculo: “sou amiga da minha filha” “sou amigo do meu filho”, para exemplificar a proximidade do pai/mãe do filho. Proximidade que às vezes se dá em vestir como, falar a gíria de, fumar uma maconha junto com a turma do, sair de paquera junto com o filho... Os filhos crianças ou adolescentes precisam de proximidade de um pai e de uma mãe que estejam no lugar de pai e de mãe, não de “amigo”. Amigo, é necessário para o desenvolvimento encontrado: fora do limite do lar. Os amigos compartem segredos, dividem confidências, problemas, dificuldade, sonhos e ilusões. Os filhos podem contar muitas intimidades para os pais, na procura de um adulto que o ama e que possa lhe dar uma vivência e experiência que não têm. Nesse caso, às vezes a procura se limita a uma dúvida fundamental, a uma pergunta que deveremos reconhecer como algo que será falado, apenas, quando perguntado de novo.

Os pais não têm como tornar o filho o confidente das suas intimidades. A porta fechada do casal marca que para o filho crescer e se tornar um adulto independente precisa estar do lado de fora da porta. Saber e reconhecer, que há uma intimidade da vida parental, à qual não tem acesso, e que algo da vida dos pais lhe é vedado. Portanto, que amizade seria essa? Onde desde já, pelo fato da parentalidade, há um aspecto, da vida do casal, que não comparte? Os pais não têm como dividir com o filho: a crise de frigidez da mulher ou de impotência do pai, ser testemunho e cúmplice da traição etc. Agora, podemos dizer que o amigo/a é o confidente em todos os aspectos de nossa vida, desde aqueles sombrios, assim como, dos logros atingidos. Com o amigo dividimos nossos triunfos e derrotas, nossos segredos íntimos. Pais não têm como dividir esses segredos com os filhos. Poder, até que pode! Mas colocam os filhos em um lugar que não lhes corresponde, os responsabilizam de um cuidado para o qual não têm maturidade.

Poucas crianças têm lucidez para dizer para um pai ou mãe: “isso que você quer falar comigo, não sou eu quem deve ouvi-lo; “não quero saber disso”, ou “não é para mim que você deve dizer isso”. Crianças capazes de tal atitude devem ter experimentado a vivência de separação, e, por isso, são capazes de não aceitar ou tolerar a invasão do outro.

No artigo “Do aconchegante colo aos limites”, afirmo que o aconchego, o bem-estar, sentido no colo materno, o abraço são o limite corporal que dá afeto e existência. Quando crescido os limites os comparava ao aconchegante colo, traduzido em “te amamos”, “te protegemos” por isso são “estes” os limites que te dou. E concluía : “O limite faz bem, saber o que pode e o que não pode, porque agora sim e porque não amanhã. Os limites esclarecem e permitem reconhecer o amor. Os limites são necessários como foram o aconchego e o colo, eles dão á criança e ao adolescente a sensação de se sentir amado e protegido”.

Nesse texto questionava também as dificuldades vividas por muitos pais, na procura de um modelo diferente do autoritarismo nas relações parentais vividas como filhos, o qual os deixava perplexos na procura de um novo modelo. Interessante que naquele momento, não tinha a preocupação em pensar o que acontecia com os pais em relação aos próprios limites; focava minha atenção à demanda comum a todo psicólogo ou psicanalista: como colocar limites aos filhos.

Uma outra preocupação é como algumas patologias mostram o lugar em que muitos filhos ficam quando os pais os fazem partícipes de suas dificuldades e conflitos. Parece que inversamente ao que acontecia quando atendíamos às demandas das escolas, das crianças, hoje vemos adultos e jovens sofrendo das pressões de pais que os utilizam para satisfação de suas necessidades, seus medos, suas fragilidades.

Recentemente, a novela “Páginas da Vida”, mostrou o personagem de Marina, jovem adolescente que se ocupa do pai alcoólatra e passa a não viver a própria vida, condena e rompe com a mãe que traiu o pai, e passa a viver para cuidar de um pai, que não tem limites. A jovem sente-se responsável pela vida do pai, que em muitas oportunidades fica na beira da morte ou colapso após uso excessivo de álcool. Caso típico do adulto que preenche o vazio próprio, antes ocupado pela (mãe) esposa, com o álcool ou outra substância química.
Anne Katherine (1999) no livro citado defende a tese de que pais também precisam de limites, e de uma maneira bastante lúcida e sintética. Lista uma série de situações que mostram como os pais podem utilizar os filhos para satisfazer as suas necessidades não tendo limites para com os seus filhos:


• Esperando que a criança cuide deles (...).
• Pedindo à criança que tome decisões de adultos. (...)
• Super-protegendo a criança – seja por se envolver excessivamente
com os interesses e atividades da criança, ou convertendo-o num clone dos seus pais (...)
4. Abusar da criança com a finalidade de exercer poder ou de
expressar a ira. (...)” Katherine, 1999, p.89


A violência física (bater ou abusar sexualmente) para a autora é uma forma de manejar a frustração e a raiva ou o sentimento de estar acossado, assim o pai/mãe abusa do filho para aliviar as suas necessidades emocionais.

Katherine afirma a importância dos pais terem as suas necessidades satisfeitas; uma mãe não pode utilizar os filhos para preencher a sua solidão. Outra questão, muito ligada com o nosso tempo: Em que medida os pais agoniados com as dificuldades de trabalho, financeiras ou de saúde ouvem e brincam com os filhos, em algumas ocasiões para depois estes parecerem ser invisíveis? O filme A procura da felicidade , retrata certamente as peripécias de um pai que se vê tendo de cuidar sozinho do filho, conseguir uma posição no emprego e dar atenção ao pequeno. Há um momento em que o pai utiliza-se da fantasia para disfarçar a miséria na qual se encontra, sem teto e sem abrigo e convida o filho a usar uma “máquina do tempo” e se protegerem dentro de uma ‘caverna' (o banheiro de uma estação de metrô). E como no filme o A vida é bela , no qual o pai brinca com o filho para ele ser poupado do horror do campo de concentração.

Pais que, apesar da desolação, da impotência e do sofrimento vivido tratam de resgatar a criança levando-a a um mundo de ilusão e de brincadeira, com a intenção de poupá-las do momento catastrófico vivido por eles. Textos, filmes que mostram que acima do sofrimento pessoal, o amor parental tenta evitar, ou não passar para o filho, a contaminação do sofrimento vivido. O limite do que cabe ao pai e o que cabe ao filho.

Para concluir, gostaria de parafrasear a autora: “Se estamos sobrecarregados de trabalho ou agoniados pelo medo, as faturas, uma enfermidade ou por uma necessidade que não conseguimos alcançar, nos sentiremos menos inclinados a dar e escutar. Infelizmente, uma criança segue pedindo independentemente do que você está fazendo. Você deve encontrar uma maneira de pagar suas faturas, e ele necessita contar-lhe algo sobre seu brincar

Referências bibliográficas:

KATHERINE, Anne 1999, Donde Terminas Tu Empiezo Yo Improve Editorial, Madrid, p.89, 90, 93.

PEZO M. Antonieta, 1998, Do Aconchegante colo aos Limites , New Time Jornal, Barueri


Maria Antonieta Pezo
Psicóloga, psicanalista, analista institucional. Professora e supervisora de Clinica Grupal no Centro Universitário Santo André. Departamento de Psicologia
Social e do Trabalho.

Fonte: CRIAR Revista de Educação Infantil

 

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